VISITANTES

AGORAFOBIA (Wilson Macêdo Jr.)




Esses passos pesados
que me afligem ao contato,
Aprisionam-me no teto
de um cômodo isolado.

Essa multidão de vozes
e gestos frenéticos,
Lança-me à parede,
Onde me perco na aflição.

E no cume da indelével
Tarde que cedo parti,
Não ouvi vozes nem passos.
Fiquei só, como sempre quis.

O ADMIRADOR (Wilson Macêdo Jr.)

O carteiro tocou a campainha três vezes. Como era de costume, a mulher foi atender à porta às pressas, e como de hábito agradeceu e fechou a porta rapidamente. Pulou no sofá como uma adolescente que recebe uma carta de amor. Não era adolescente, mas com certeza o que tinha em mãos era mais uma carta de seu admirador secreto. O riso no rosto era incontrolável, a ansiedade para ler aquelas linhas também. Já era de praxe nas terças-feiras, seu dia de folga no trabalho, receber os mimos do seu admirador. Ao mesmo tempo em que se deliciava com aquela situação, também ficava um pouco assustada, pois, deveria ser alguém que conhecesse muito bem a sua rotina de trabalho. E perguntava a si mesma se seria possível ser alguém do trabalho, nada poderia fazer mais sentido. Percebia que o seu vizinho de cubículo naquela gigantesca empresa de telemarketing agia de modo estranho, buscando sempre desculpas para presenteá-la com pequenos mimos. Daí vinha logo em sua cabeça a imagem de uma pessoa mais fechada, o seu colega de trabalho embora lhe levantasse algumas suspeitas não parecia ser do tipo que admirava secretamente uma mulher. Tirou as idéias da cabeça e se concentrou na carta, não era muito extensa, era concisa, mas forte o suficiente para deixá-la tocada.
Na manhã seguinte realizou toda a sua rotina matinal e partiu para o trabalho, ou melhor, partiu à caça do tal admirador, e rezou para que fosse de lá, e talvez tenha até rezado para ser o seu galante vizinho de cubículo. Agiu de maneira natural e pensou em uma forma de descobrir e pensou que pela letra não seria possível, o seu admirador era muito astuto e não escrevia as cartas de próprio punho. Mas agora que tinha a hipótese de ser alguém do escritório, resolveu prestar mais atenção ao comportamento de todos. Entre uma ligação e outra, lembrou que os admiradores geralmente gostam de presenciar as entregas, então pensou que talvez não fosse alguém dali, mas enfim, não conhecia tudo sobre amores secretos e platônicos e continuou em sua aposta. Na pausa para o cafezinho acompanhou o seu vizinho de cubículo, faria algumas perguntas discretamente, para não assustá-lo.
- Aconteceu alguma coisa?
- Mais ou menos. Eu meio que estou sendo admirada secretamente. – nenhuma reação estranha.
- Ora, ora... e você desconfia de alguém?
Pensou por dois segundos.
- Não – o “não” foi quase que automático – você desconfia de alguém? – achou que tinha ido longe demais com essa pergunta.
- Não – esse “não” saiu mais reflexivo – mas poderia ser uma porrada de caras.
- Bom saber. – “uma porrada de caras”. Achou que essa frase fora do tipo: “Quem não se apaixonaria por você?”, não sabia se ficava lisonjeada ou preocupada, já que poderia ser “uma porrada de caras”, sua busca seria mais difícil. Pensou que seria mais fácil se ele dissesse “sim, sou eu”. Mas o que veio a seguir depois da infame frase “mas poderia ser uma porrada de caras”, chamou a sua atenção. Um olhar. Três segundos. Disse muita coisa, ela já esperava pela revelação.
- Nem olhe para mim.
E ele estendeu a mão direita. Indagou-se como nunca tinha reparado naquela enorme aliança de noivado. Era noivo. Não era ele. E durante o dia sentiu-se decepcionada, como se estivesse procurando algo que sabia que não ia encontrar. Sentiu que talvez fosse hora de jogar fora todas aquelas cartas, esquecer o assunto de uma vez, e pedir ao carteiro que ignorasse aquelas correspondências, não sabia se isso seria possível, mas tentaria assim mesmo.
Ao chegar em casa, a primeira coisa que fez foi avançar sobre o envelope grande com todas aquelas cartas, e fazer uma grande fogueira dentro de um balde. Jogava uma por uma e assistia aquela cremação de palavras doces e frases feitas. E no ato de queimar, foi percebendo a ausência de selos. Aquelas cartas não possuíam selos, não tinham sido postadas nos correios. E como se seu cérebro trabalhasse feito uma engrenagem, juntou as duas coisas. As cartas não eram postadas, eram entregues pelo carteiro, que sabia toda a sua rotina, sabia que apanharia pessoalmente as correspondências às terças-feiras. Viu que tudo fazia sentido. Decidiu dar um ponto final naquela situação. E passada mais uma semana, cumprira o que prometera a si mesma. Ao soar a campainha, todo seu corpo respondeu de forma segura, seus passos pareciam mais firmes do que nunca, como alguém que caminha por um caminho conhecido. Não hesitou ao abrir a porta, agiu de forma natural. Quando o carteiro lhe entregou a correspondência, pediu que esperasse, fuçou o maço de envelopes, achou a carta do seu admirador e a devolveu.
- Não sei se é possível, ou se faz parte do seu trabalho, mas por favor, ignore essas cartas.
Calou-se por segundos o carteiro.
- Tudo bem.
O carteiro saiu do prédio e ao bater a porta às suas costas, ouviu o assovio já conhecido. O homem se aproximou. Parecia ansioso.
- Como ela agiu? – perguntou o homem.
- Pediu que eu ignorasse suas cartas.
O homem pareceu decepcionado.
- Escuta o que eu digo. Você trabalha ao lado dela o dia todo e todo dia. Talvez se ela soubesse que é você...
- É melhor esquecer essa história meu amigo.
Despediram-se. E ao olhar para cima do prédio, em direção à janela do apartamento de Alice, o que Walter viu foi um sorriso de quem assistira toda a cena. Tinham sido pegos em flagrante: O carteiro e o admirador.

CRIPTOGRAFIA, LÁGRIMAS E SANGUE (Wilson Macêdo Jr.)



Durmam segredos ignóbeis, ao relento da culpa.
Expandam-se no adormecer das verdades e no
baile de máscaras da vida, no triste ato de viver.

Escondam-se nas gargalhadas pelos ventos levadas,
Revelem-se ao meu adormecer nunca às alvoradas.
Fiquem nas linhas escritas, nas criptografias
Manchadas por lágrimas, nas falantes páginas
e nos versos presos na consciência já atormentada.

Avante segredos! Derramem sobre mim o fim cortante.
Façam dos meus pulsos rios abertos de impuro sangue,
Façam-me calar antes que os corretos aqui me encontrem.

As aparências já não discutem regras, apenas me guiam.
As melancólicas melodias desse inverno partem agora.
Não reluto mais, quero conhecer o maior dos medos,
E afogar-me no rubro líquido que goteja no piso branco
[agora vermelho
E libertar-me das ânsias, dos ascos, dos meus segredos.

DECOMPOSIÇÃO DO POEMA POR UM VERSO (Wilson Macêdo Jr.)




Um pássaro canta,
Uma soprano canta,
Uma cigarra canta.

O sol nasce,
Uma criança nasce,
Um dente nasce.

Uma estrela cai,
Uma fruta cai,
A noite cai.

Um menino escreve,
Uma professora escreve,
Um poeta escreve.

Um cão se perde,
Uma folha se perde,
Um poema se decompõe.

CENSURA POÉTICA (Wilson Macêdo Jr.)




Do topo há mil, dois mil olhares
a censurar-me os meus versos.
Desmaiam e quedam em agonia,
Os meus poemas agora funestos.

AMO (Wilson Macêdo Jr.)






Amo a lâmpada que apago,
O cigarro que acendo,
Amo o trago despachado
Para o pulmão sedento.

Amo sem entender as aves,
Sem entender os reveses.
O que sustenta o pesado?
E o que faz cair o que é leve?

Ando amando mesmo amuado,
Mesmo pela sorte liquidado.
Mas também amo em pé,
E sempre espero bem acomodado.

Faço frente ao retrato,
Não o meu, não o teu,
É aquele amarelado.
Só o observo estupefato.

Amo os segundos seguintes
da nossa morte horizontal.
Amo os pesares, os contras,
Odeio os prós, abomino as contas.

Grande são as batalhas gris,
As mazelas encouraçadas
Pelos olhos que nada vêem,
Além da luz que os apaga.

A MOÇA E A ROSA (Wilson Macêdo Jr.)


Para Dilma Mello
Descubro então a moça a acariciar uma rosa.
Uma fina flor que fazia parte do seu jardim.
Da minha pena não saíram versos, apenas prosa.
Ela estava deitada banhando-se ao sol como jasmin.

Nem o barulhento trovão que futura chuva anunciava,
Fazia com que seu infinito tempo se desfizesse.
Tomava de um belo sorriso como se sol houvesse,
E a pura rosa traquilamente em seu colo descansava.

Caiu a primeira gota, a segunda gota caiu,
Molhou a sua fronte que para o alto apontava,
A rosa que em seu colo tranquilamente estava,
Parecia adormecer. E Niguém mais as viu.